Monte Vesúvio: O Gigante de Nápoles - O Cataclismo Pliniano de 79 d.C., a 'Zona Vermelha' e o Risco Moderno
Descubra o Monte Vesúvio, o vulcão mais perigoso do mundo. Explore a destruição de Pompeia, a história das suas erupções em tempo de guerra e os planos de emergência audaciosos para os 3 milhões de residentes de Nápoles.
O Monte Vesúvio é talvez o vulcão mais famoso da Terra. Dominando a Baía de Nápoles, no sul da Itália, é uma presença sinistra que moldou a história da civilização ocidental. É o único vulcão ativo no continente europeu e é amplamente considerado o mais perigoso do mundo, não pelo seu tamanho, mas pela sua proximidade a mais de 3 milhões de pessoas. Desde a lendária destruição de Pompeia em 79 d.C. até à erupção em tempo de guerra em 1944, o Vesúvio serve como um lembrete contundente do frágil equilíbrio entre a ocupação humana e os gigantes adormecidos da Terra.
1. O Cataclismo de 79 d.C.: O Nascimento da Vulcanologia Pliniana
A erupção ocorrida em agosto (ou possivelmente outubro) de 79 d.C. é a referência pela qual todas as erupções explosivas são medidas. Fez mais do que destruir cidades; criou o modelo para a ciência vulcânica moderna.
A Testemunha: Plínio, o Jovem
Conhecemos os detalhes da erupção de 79 graças às cartas de Plínio, o Jovem, que assistiu ao evento a partir do outro lado da baía, em Miseno. Ele descreveu uma nuvem imponente em forma de “Pinheiro Mediterrânico”, com um tronco de cinzas e ramos de detritos que se espalhavam. Este relato vívido deu aos cientistas o termo “erupção pliniana” para descrever eventos explosivos de grande altitude. O seu tio, Plínio, o Velho, morreu durante a erupção enquanto tentava resgatar amigos por mar — a primeira vítima registada de uma missão de resgate científico.
A Destruição de Pompeia e Herculano
As cidades de Pompeia e Herculano sofreram destinos diferentes, mas igualmente atrozes. Pompeia foi enterrada sob metros de pedra-pomes e cinzas, o que acabou por causar o colapso dos telhados e asfixiou aqueles que ficaram para trás. Herculano, mais próxima do cume, foi atingida por massivas correntes de densidade piroclástica (PDCs) — avalanches de gás e rocha superaquecidos que se moviam a centenas de quilómetros por hora. Estes fluxos eram tão quentes (até 500°C) que ferveram instantaneamente o tecido cerebral e vaporizaram os tecidos moles das vítimas, deixando para trás restos “carbonizados” que foram descobertos séculos depois.
2. Uma História Violenta: Da Idade Média ao Renascimento
Depois de 79 d.C., o Vesúvio não ficou em silêncio. Passou por uma série de ciclos violentos que alteraram repetidamente a paisagem da Campânia.
A Erupção de Avellino: A Catástrofe da Idade do Bronze
Muito antes da erupção de 79 d.C., o Vesúvio produziu um evento ainda maior, conhecido como a erupção de Avellino (aprox. 1800 a.C.). Este desastre VEI 6 destruiu vários assentamentos da Idade do Bronze e cobriu toda a região da Campânia com vários metros de cinzas. Os arqueólogos descobriram pegadas pré-históricas preservadas nas cinzas, mostrando pessoas a fugir em direção ao mar — um precursor assustador dos eventos de Pompeia. Esta erupção formou a caldeira “Somma” original em que o Vesúvio assenta hoje.
O Evento Renascentista Mais Mortal: 1631
Após quase 500 anos de relativo silêncio, durante os quais as encostas do vulcão foram cobertas por florestas luxuriantes e vinhas, o Vesúvio entrou em erupção com uma violência súbita em dezembro de 1631. Este foi um evento VEI 5, semelhante em intensidade à erupção de 79 d.C. Libertou lahars (fluxos de lama) massivos e ondas piroclásticas que destruíram quase todas as cidades na base da montanha. Estima-se que 3.000 a 6.000 pessoas tenham morrido. Este desastre levou o governo local a implementar algumas das primeiras restrições de planeamento urbano registadas com foco no risco vulcânico, embora estas tenham sido amplamente esquecidas nos séculos seguintes.
3. A Erupção de 1944: Fogo em Plena Segunda Guerra Mundial
A erupção mais recente do Vesúvio ocorreu em março de 1944, no auge da Campanha de Itália durante a Segunda Guerra Mundial. É única na história como a primeira erupção do Vesúvio a ser extensivamente documentada por filme e fotografia.
O Impacto no Esforço Aliado
À medida que as forças Aliadas (incluindo a 12ª Força Aérea dos EUA) avançavam pela região, o vulcão rugiu de volta à vida. Os fluxos de lava destruíram as aldeias de San Sebastiano e Massa di Somma. Para os militares Aliados, a queda de cinzas foi um grande desastre técnico. No Aeródromo de Pompeia, quase 80 bombardeiros B-25 Mitchell foram danificados ou destruídos pelo peso das cinzas quentes, que derreteram as superfícies de controlo de tecido e esmagaram as estruturas leves de alumínio. Felizmente, as evacuações militares significaram que não houve mortes de militares, embora a perda de aeronaves tenha sido um revés significativo para a missão de superioridade aérea local.
4. O Complexo Somma-Vesúvio: Geologia de um Gémeo
Para compreender o Vesúvio, é preciso compreender a sua forma. É um Somma-estratovulcão, consistindo num cone mais jovem (Vesúvio) aninhado dentro dos restos de um vulcão mais antigo e colapsado (Monte Somma).
A Crista do Somma
A crista semicircular que rodeia o Vesúvio a norte e a leste é o que resta da parede original da caldeira que colapsou durante uma erupção antiga. Esta crista, conhecida como o Monte Somma, fornece um escudo natural para a cidade de Nápoles contra alguns dos fluxos do vulcão. No entanto, os flancos sul e oeste — onde se situam as cidades da “Zona Vermelha” — permanecem inteiramente expostos ao caminho direto de futuros fluxos piroclásticos.
Mecânica Pliniana
O perigo do Vesúvio reside na sua natureza “explosiva”. O magma sob o vulcão é rico em sílica e gases dissolvidos. Quando este magma atinge uma pressão crítica, estilhaça-se em finos fragmentos de vidro (cinzas) e pedra-pomes, que são depois projectados pelos gases em expansão para a estratosfera. O colapso destas colunas verticais de cinzas é o que gera os fluxos piroclásticos letais que tornam o Vesúvio muito mais perigoso do que vulcões “efusivos” como o Kilauea ou o Etna.
5. A “Zona Vermelha”: Risco Moderno e o Plan de Emergência de Nápoles
Hoje, o Vesúvio está calmo, mas sob a vigilância mais intensa de qualquer montanha na Terra. As apostas são mais altas do que nunca.
800.000 Pessoas no Caminho do Fogo
O Departamento de Proteção Civil de Itália designou a Zona Rossa (Zona Vermelha) como a área que deve ser evacuada antes de uma erupção começar. Esta zona inclui 25 municípios e mais de 800.000 residentes que vivem no caminho direto de potenciais fluxos piroclásticos. Nenhum edifício nesta zona é capaz de resistir ao calor e à força de um PDC; a evacuação total é a única forma de salvar vidas.
O Plano de 72 Horas
O plano nacional de emergência de Itália para o Vesúvio é um empreendimento logístico massivo. Tem como objetivo evacuar toda a Zona Vermelha em 72 horas. O plano envolve 20 regiões diferentes de Itália, cada uma das quais está “geminada” com uma cidade da Zona Vermelha para receber os seus refugiados. Por exemplo, se Pompeia tiver de ser evacuada, os seus residentes já têm uma região de acolhimento designada (como a Úmbria ou a Toscana). O principal desafio continuam a ser as estradas estreitas e congestionadas dos subúrbios napolitanos, que poderiam facilmente ficar paralisadas durante um pânico.
6. Monitorização Moderna: O Observatório do Vesúvio
Fundado em 1841 pelo Rei Fernando II das Duas Sicílias, o Osservatorio Vesuviano é o observatório vulcanológico mais antigo do mundo. O seu primeiro diretor, Macedonio Melloni, utilizou os primeiros sensores magnéticos para monitorizar a montanha. Hoje, o edifício original nas encostas do vulcão serve como museu e centro de investigação. A missão de 180 anos do observatório evoluiu para um centro nevrálgico de alta tecnologia que processa dados de mais de 100 estações sísmicas, ajudando os cientistas vulcânicos de todo o mundo a compreender como monitorizar gigantes adormecidos.
7. Perguntas Frequentes (FAQ)
O Monte Vesúvio ainda está ativo?
Sim. Embora não entre em erupção desde 1944, é considerado “ativo, mas adormecido”. A ausência de fumo ou vapor hoje não significa que a ameaça tenha desaparecido; historicamente, os períodos mais longos de silêncio do Vesúvio foram seguidos pelas suas erupções mais violentas.
Posso visitar a cratera?
Sim, o Parco Nazionale del Vesuvio permite aos visitantes caminhar até ao “Gran Cono” (Grande Cone). Um caminho bem mantido leva à borda da cratera, onde se podem ver fumarolas e olhar para o interior de 300 metros de profundidade.
Quanto tempo de aviso teremos?
O Observatório do Vesúvio monitoriza o vulcão 24 horas por dia, 7 dias por semana. Procuram “enxames” de sismos, alterações na química dos gases vulcânicos e inchaço do solo. Os cientistas acreditam que teriam semanas ou mesmo meses de aviso antes de uma erupção importante, embora a precisão destas previsões nunca seja de 100%.
Especificações Técnicas
| Característica | Dados |
|---|---|
| Elevação | 1.281 m |
| Tipo | Somma-Estratovulcão |
| Principais Riscos | Fluxos piroclásticos (PDCs), Queda de cinzas, Lahars |
| População da Zona Vermelha | ~800.000 |
| Agência de Monitorização | INGV - Osservatorio Vesuviano |
| Último Grande Evento | 1944 (Erupção), 1631 (VEI 5) |
O Monte Vesúvio é um gigante adormecido num dos cantos mais belos e povoados do mundo. A sua história é um testemunho do facto de que, embora possamos construir as nossas cidades, é a Terra que, em última análise, determina o seu destino.