Popocatépetl: O Guerreiro Fumegante do México - Lenda, História Azteca e 'Don Goyo'
Descubra o Popocatépetl, o vulcão ativo mais famoso da América do Norte. Explore a lenda dos amantes eternos, a sua origem náuatle, o apelido 'Don Goyo' e por que continua a ser uma ameaça constante para a Cidade do México.
O Popocatépetl (afetuosamente conhecido como “El Popo”) é o coração ardente do México. Erguendo-se a massivos 5.426 metros (17.802 pés), é o segundo pico mais alto do país e um dos vulcões mais ativos da América do Norte. Para os milhões de pessoas que vivem na Cidade do México e nos vales circundantes, o Popocatépetl é uma sentinela fumegante constante — uma lembrança do poder bruto da terra e um elo profundo com o passado pré-hispânico. Das suas trágicas origens em náuatle ao seu estatuto atual como uma grande ameaça geológica, o “Popo” é uma montanha que define a identidade do centro do México.
1. A Vigilância Eterna: A Lenda de Popo e Izta
Não se pode falar do Popocatépetl ohne mencionar a sua companheira, o vulcão adormecido Iztaccíhuatl. Juntos, formam uma paisagem lendária que tem inspirado gerações.
Os Romeu e Julieta do México
De acordo com a mitologia azteca, Popocatépetl era um grande guerreiro e Iztaccíhuatl era uma bela princesa, filha de um rei poderoso. Eles apaixonaram-se profundamente e, antes de partir para uma grande guerra, Popocatépetl prometeu ao rei que voltaria vitorioso para casar com a princesa. No entanto, um rival invejoso enviou notícias a Iztaccíhuatl de que o seu guerreiro tinha morrido em batalha. Devastada, a princesa morreu de tristeza.
Quando Popocatépetl regressou triunfante e encontrou a sua amada morta, foi consumido pela dor. Levou o seu corpo para o topo das montanhas, construiu dois montes maciços e ajoelhou-se ao seu lado com uma tocha fumegante para vigiá-la por toda a eternidade. Os deuses, comovidos pela sua devoção, transformaram-nos em pedra. O Iztaccíhuatl tornou-se a “Mulher Adormecida” (já que a sua silhueta se assemelha a uma figura feminina reclinada), e o Popocatépetl tornou-se o vulcão que exala fumo para sempre — a chama eterna do seu amor imortal.
2. Herança Azteca: A Montanha que Fuma
O nome Popocatépetl deriva das palavras náuatle popōca (fuma) e tepētl (montanha). Esta origem linguística realça há quanto tempo o vulcão está ativo; mesmo há centenas de anos, os povos indígenas reconheciam a sua característica mais marcante.
Geografia Sagrada e Rituais
Para os aztecas, os vulcões não eram apenas montanhas; eram divindades. Eles acreditavam que o Popocatépetl era um local sagrado importante onde residia o deus do fogo, Xiuhtecutli. Os sacerdotes subiam alto nas suas encostas para realizar rituais, oferecendo incenso e sacrifícios para prevenir os incêndios “que acabam com o mundo” que o vulcão era capaz de produzir.
O Primeiro Uso “Industrial”
Curiosamente, o Popocatépetl desempenhou um papel menor, mas crucial, na Conquista espanhola. Em 1522, durante os primeiros anos da ocupação, soldados sob o comando de Hernán Cortés escalaram o vulcão (uma façanha incrível para a época) para recolher enxofre da sua cratera. Este enxofre foi utilizado para fabricar pólvora, demonstrando o valor estratégico imediato do vulcão para os europeus.
3. “Don Goyo”: O Folclore do Ancião
Embora as lendas aztecas sejam famosas mundialmente, as comunidades locais perto do vulcão mantêm uma mitologia mais íntima e viva. Milhares de residentes em aldeias como Santiago Xalitzintla referem-se à montanha como Don Goyo.
O Ancião da Montanha
O apelido “Goyo” provém de São Gregório (San Gregorio). A lenda fala de um homem humilde chamado Antonio, que enquanto caminhava na montanha, encontrou um ancião. O estranho apresentou-se como Gregório Chino Popocatépetl e afirmou ser o “espírito” da montanha. Disse que sempre que estivesse zangado ou se sentisse desrespeitado, fumegaria e sacudiria a terra. Hoje em dia, muitos habitantes locais acreditam que a atividade do vulcão é um reflexo do humor de Don Goyo, e realizam “bênçãos” (os Tiemperos) para manter a montanha calma.
4. Perigo Moderno: Enfrentando o Gigante Fumegante
O Popocatépetl é um dos vulcões mais perigosos do mundo, não porque as suas erupções sejam unicamente massivas, mas devido à sua proximidade com centros populacionais humanos.
A Ameaça à Cidade do México
Localizado a apenas 70 quilómetros (43 milhas) a sudeste da Cidade do México, uma erupção do Popo poderia impactar mais de 30 milhões de pessoas. A principal preocupação não são normalmente os fluxos de lava, que raramente viajam tão longe, mas a queda de cinzas. Nas últimas décadas, nuvens massivas de cinzas vulcânicas finas atingiram a capital, paralisando voos no Aeroporto Internacional Benito Juárez, obstruindo sistemas de drenagem e causando problemas respiratórios generalizados.
CENAPRED e o Sistema de Semáforo
Para gerir este risco, o governo mexicano criou o CENAPRED (Centro Nacional de Prevenção de Desastres). Eles mantêm um sistema de “Semáforo de Alerta Vulcânica”:
- Verde: Normalidade.
- Amarelo: Alerta (incremento de atividade, vapor e cinzas).
- Vermelho: Perigo (erupção iminente ou evacuação). Desde o seu “despertar” em 1994, após um longo período de dormência, o vulcão tem passado grande parte do tempo na fase Amarela, um estado de inquietação persistente que mantém cientistas e residentes em alerta máximo.
5. Biodiversidade: Vida no Limite do Fogo
Apesar do ambiente perigoso, o Parque Nacional Izta-Popo Zoquiapan é um refúgio para uma vida selvagem única.
O Coelho dos Vulcões (Zacatuche)
Um dos animais mais elusivos e ameaçados do mundo vive nas encostas do Popocatépetl: o Coelho dos Vulcões (Romerolagus diazi), também conhecido como Teporingo ou Zacatuche. Este pequeno coelho de orelhas redondas vive apenas nas florestas de pinheiros de elevada altitude e pastagens (conhecidas como zacatonal) do Eixo Neovulcânico mexicano. É o segundo menor coelho do mundo e serve como um indicador vital da saúde do ecossistema vulcânico.
Florestas de Elevada Altitude
A montanha apresenta camadas ecológicas distintas. As encostas mais baixas estão cobertas de florestas de abeto-oyamel e pinheiros. À medida que se sobe, as árvores desaparecem, dando lugar à tundra vulcânica e, finalmente, à rocha estéril e ao gelo eterno. O clima variável e o calor próprio do vulcão tornam este um habitat em constante mudança para dezenas de espécies de aves e pequenos mamíferos.
6. UNESCO e Marcos Culturais
A influência do Popocatépetl estende-se ao domínio da arquitetura e do património mundial. Nas suas encostas, os espanhóis construíram uma série de mosteiros do século XVI concebidos para evangelizar as populações indígenas que viviam à sombra do gigante fumegante.
Os Mosteiros nas Encostas
Estes mosteiros, localizados nos estados de Morelos e Puebla, são um local do Património Mundial da UNESCO. Representaram um novo estilo arquitetónico que misturava elementos góticos e renascentistas europeus com influências indígenas locais. Muitas destas igrejas foram danificadas durante o sismo de Puebla em 2017, demonstrando como a atividade sísmica da região vulcânica continua a ameaçar a história e a arte humanas.
7. Perguntas Frequentes (FAQ)
Posso escalar o Popocatépetl?
Atualmente, não. Desde que o vulcão retomou a atividade em 1994, as autoridades mexicanas estabeleceram uma zona de exclusão de 12 quilómetros ao redor da cratera. É ilegal e extremamente perigoso aproximar-se do cume. No entanto, o trekking e a escalada continuam a ser muito populares no vizinho (e adormecido) Iztaccíhuatl.
Quando foi a última erupção importante?
O Popocatépetl tem estado numa fase de atividade desde 1994. Houve muitos eventos “menores” envolvendo colunas de cinzas que atingiram 9 quilómetros de altura e fontes de lava espetaculares na cratera. A última erupção massiva que alterou a civilização ocorreu há séculos, mas a atividade constante sugere que o vulcão está longe de voltar a dormir.
O que devo fazer se caírem cinzas?
As autoridades mexicanas aconselham os residentes a permanecerem em ambientes fechados, selarem janelas e portas com panos húmidos e nunca usarem água para lavar as cinzas (pois transformam-se numa lama pesada, semelhante a cimento, que arruína a canalização). O uso de máscara é essencial ao sair à rua durante um evento de cinzas.
Por que existe um “Passo de Fumo” chamado Don Goyo?
Como mencionado anteriormente, “Don Goyo” é o espírito personificado da montanha. Os habitantes locais acreditam que ele é o guardião da terra, e o seu “fumo” é a sua forma de respirar ou comunicar com o mundo. O termo “Passo de Fumo” (Paso de Humo) também se refere ao desfiladeiro entre o Popo e o Izta.
Qual é o tamanho da cratera?
A cratera do Popocatépetl tem aproximadamente 400x600 metros de largura e 150 metros de profundidade. Dentro desta cratera, formam-se frequentemente pequenos “domos de lava” que são depois destruídos por emissões explosivas de gás, que são a fonte das frequentes nuvens de cinzas. A destruição destes domos gera sons de “batidas” que podem ser ouvidos a quilómetros de distância.
Especificações Técnicas
| Característica | Dados |
|---|---|
| Altitude | 5.426 m (17.802 pés) |
| Nome Nativo | Popocatépetl (Náuatle: Montanha que Fuma) |
| Estado | Estratovulcão Ativo |
| Parque Nacional | Parque Nacional Izta-Popo Zoquiapan |
| Sítio UNESCO | Mosteiros nas encostas do Popocatépetl |
| Espécie Ameaçada | Coelho dos Vulcões (Teporingo) |
| Proximidade à Cidade do México | ~70 km |
O Popocatépetl é mais do que uma montanha; é uma personagem viva na história do México. É um símbolo de amor, um local de adoração antiga e um desafio científico moderno. Seja brilhando a vermelho durante a noite ou coberto pela sua neve de inverno, a Montaña que Humea continua a ser uma das vistas mais impressionantes do planeta.