Nevado del Ruiz: O Leão Adormecido dos Andes - História, Tragédia e Resiliência
Uma imersão profunda no Nevado del Ruiz, o vulcão colombiano conhecido pelo seu cume coberto de glaciares e pela devastadora tragédia de Armero em 1985. Explore a sua formação geológica, erupções históricas e os esforços atuais de monitorização.
O Nevado del Ruiz, também conhecido localmente como El Mesa de Herveo ou “O Leão Adormecido”, é um dos vulcões mais significativos e mais notórios da América do Sul. Situado na Cordilheira Central dos Andes colombianos, é o membro mais setentrional do maciço vulcânico Ruiz-Tolima. Com uma altitude de 5.321 metros, a sua presença imponente coroada de neve dominou a paisagem durante milénios, servindo tanto como fonte de água vital para os vales férteis abaixo, como uma fonte recorrente de destruição catastrófica.
1. Formação Geológica: Um Gigante de Subducção
O Nevado del Ruiz é um estratovulcão clássico, formado pela subducção da Placa de Nazca sob a Placa Sul-Americana. Esta interação de placas tectónicas cria uma “fábrica” de magma à medida que a crosta oceânica é forçada para as profundezas da Terra, onde derrete e sobe à superfície.
Estruturas Ancestrais e Atuais
O complexo vulcânico começou a formar-se há aproximadamente 2 milhões de anos, pero o cone atual — a estrutura que vemos hoje — iniciou a sua formação há cerca de 150.000 anos. Caracteriza-se por um cume amplo e relativamente plano (a “Mesa”) e vários cones menores. O núcleo do vulcão é composto por camadas de fluxos de lava andesítica e dacítica, alternando com camadas de cinza vulcânica e detritos piroclásticos, típicos de estratovulcões explosivos.
O Maciço Ruiz-Tolima
O Nevado del Ruiz não está isolado. Situa-se na intersecção de quatro zonas de falha principais e faz parte de um grupo maior que inclui o Nevado del Santa Isabel, le Nevado del Cisne e o complexo do Cerro Bravo. Esta proximidade significa que uma erupção no Ruiz é frequentemente parte de um período mais amplo de agitação sísmica e vulcânica regional.
2. O Legado dos Lahars: Uma História Recorrente
Embora o mundo se lembre de 1985, a história do Nevado del Ruiz é uma crónica de fluxos de lama devastadores, ou lahars. Estes ocorrem quando erupções explosivas fornecem calor suficiente para derreter rapidamente os glaciares do cume, enviando uma mistura de água, cinza e rochas pelos canais dos rios.
As Erupções de 1595 e 1845
- 1595: Uma erupção importante desencadeou três pulsos separados de lahars. Estes fluxos viajaram pelos rios Gualí e Lagunillas, ceifando a vida de 636 pessoas.
- 1845: Um fluxo de lama ainda mais imenso ocorreu a 19 de fevereiro de 1845. Um lahar maciço varreu o vale do rio Lagunillas por mais de 70 quilómetros. Matou mais de 1.000 pessoas e depositou uma espessa camada de sedimentos que enriqueceu fertilmente o solo.
Tragicamente, a cidade de Armero foi estabelecida no início do século XX diretamente sobre estes depósitos de lahar de 1845 — um aviso geológico que foi amplamente esquecido pela população geral e pelas autoridades locais.
3. A Tragédia de Armero de 1985: Um Mundo em Luto
A erupção em 13 de novembro de 1985 permanece como um dos eventos vulcânicos mais mortais da história humana e um estudo de caso assustador sobre falhas na comunicação de perigos.
Precursores e a Erupção
A partir do final de 1984, o vulcão começou a mostrar sinais de agitação: aumento da atividade sísmica, emissões de fumarolas e explosões freáticas (movidas a vapor). Apesar dos avisos de vulcanólogos internacionais e da criação de um mapa de riscos que previu com precisão o caminho dos futuros lahars, o governo local hesitou em ordenar uma evacuação, temendo que causasse pânico desnecessário.
A erupção em si foi relativamente pequena, medindo apenas um VEI 3 (Índice de Explosividade Volcânica). No entanto, ocorreu às 21:08, sob a cobertura de uma tempestade. Fluxos piroclásticos derreteram rapidamente cerca de 10% da calota de gelo do cume do vulcão.
A Destrucción de Armero
Numas poucas horas, quatro lahars massivos desceram pelos flancos do vulcão. O fluxo direcionado ao vale do rio Lagunillas atingiu velocidades de 50 km/h. Quando atingiu a cidade de Armero às 23:30, o lahar foi descrito como uma “parede de ruído e lama” com 40 metros de altura. Numa única noite, 23.000 pessoas pereceron — aproximadamente 75% da población da cidade. Outras 1.000 morreron na cidade de Chinchiná, no lado oposto do vulcão.
Omayra Sánchez: O Rosto do Desastre
A atenção do mundo focou-se em Omayra Sánchez, de 13 anos, que ficou presa até ao pescoço numa mistura de lama e detritos. Durante 60 horas, jornalistas e socorristas tentaram libertá-la, mas sem maquinaria pesada ou bombas para baixar o nível da água, os seus esforços foram em vão. Ela permaneceu corajosa, falando com repórteres e até cantando até sucumbir à gangrene e à hipotermia. A sua morte, capturada numa fotografia assombrosa de Frank Fournier, tornou-se um símbolo da impotência da comunidade global face ao desastre.
4. Estado Atual: O Nível de Alerta Amarelo
Desde o desastre de 1985, o Nevado del Ruiz nunca regressou verdadeiramente a um estado de dormência total. Em 2010, o vulcão entrou num novo período de “agência”, que continua até hoje.
Erupções em Curso (2014 - Presente)
Desde 2014, o vulcão tem estado num estado de erupção de baixo nível quase contínuo. Isto caracteriza-se por:
- Emissões de Cinza: Plumas de cinza frequentes que muitas vezes interrompem voos nos aeroportos próximos em Manizales e Pereira.
- Enxames Sísmicos: Períodos intensos de sismos relacionados com o movimento de magma e gases dentro das condutas vulcânicas.
- Fluxo de Dióxido de Enxofre: Níveis elevados de emissão de gás que podem ser detetados por satélite em todo o continente.
O vulcão é atualmente mantido num “Nível Amarelo” (III) de atividade pelo Serviço Geológico Colombiano, o que significa “Mudanças no comportamento da atividade vulcânica”. Este nível significa que o vulcão é instável e pode potencialmente entrar em erupção com pouco aviso prévio.
5. Recuo Glaciar e Alterações Climáticas
O Nevado del Ruiz é um dos poucos locais na Colômbia que ainda acolhe glaciares permanentes. No entanto, estas “neves eternas” estão a desaparecer a um ritmo alarmante.
O Desaparecimento da Calota de Gelo
Em 1985, a área glaciada era de aproximadamente 21 km². Em 2020, tinha diminuído para menos de 8 km². Este recuo é uma “espada de dois gumes” de calor:
- Calor Volcânico: A atividade interna contínua do vulcão aquece o solo por baixo.
- Aquecimento Global: Os aumentos da temperatura atmosférica estão a derretir os glaciares por cima.
Os cientistas preveem que, se as tendências atuais continuarem, os glaciares do Nevado del Ruiz podem desaparecer inteiramente nas próximas duas décadas. Paradoxalmente, isto reduz o volume de água disponível para futuros lahars, mas também cria encostas mais instáveis de detritos vulcânicos soltos que podem ser mobilizados por chuvas intensas.
6. Biodiversidade: O Paramo de Altitude
Apesar da sua reputação destrutiva, o vulcão é a peça central do Parque Nacional Natural Los Nevados, um santuário ecológico vital.
O Ecossistema do Paramo
As encostas do vulcão (entre 3.000 e 4.500 metros) abrigam o Paramo, uma charneca de altitude única. Este ecossistema atua como uma esponja maciça, capturando a humidade das nuvens e regulando o fornecimento de água para milhões de pessoas na região do café da Colômbia.
Flora: Os Frailejones
A planta mais icónica do paramo do Ruiz é o Frailejón (Espeletia). Estas plantas de aspeto estranho têm caules espessos e suculentos e uma “coroa” de folhas lanosas que prendem a humidade e protegem a planta da intensa radiação UV e das temperaturas noturnas glaciais. Algumas espécies crescem apenas alguns centímetros por ano e podem viver mais de 200 anos.
Fauna: O Condor e o Beija-flor
O parque é um dos últimos redutos do Condor dos Andes, a maior ave voadora do mundo. É também o lar do Beija-flor-de-capacete (Chivito de los Páramos), que é endémico especificamente dos cumes vulcânicos de altitude do maciço Ruiz-Tolima.
7. Monitorização: O Observatório de Manizales
O maior legado da tragédia de 1985 é a transformação da abordagem da Colômbia à monitorização vulcânica. O Observatório Vulcanológico e Sismológico de Manizales foi estabelecido imediatamente após o desastre e é hoje um dos mais sofisticados do mundo.
- Vigilância em Tempo Real: Câmaras web, sensores de gás e monitorização por satélite fornecem dados 24 horas por dia, 7 dias por semana.
- Sistemas de Alerta Precoce: Sensores de cheias repentinas e lahar estão instalados nos rios Gualí, Lagunillas e Azufrado para fornecer minutos cruciais de tempo de reação às comunidades a jusante.
- Envolvimento Comunitário: Exercícios de evacuação regulares e programas educativos garantem que a população local sabe exatamente como responder a mudanças nos níveis de alerta.
Especificações Técnicas
| Característica | Dados |
|---|---|
| Altitude | 5.321 m |
| Diâmetro da Cratera | 1 km (Cratera Arenas) |
| Última Erupção Significativa | 1985 (Catastrófica), 2023 (Enxames de cinza) |
| Perigos Principais | Lahars, Fluxos piroclásticos, Queda de cinza |
| Parque Nacional | Los Nevados (estabelecido em 1974) |
| Cidades Próximas | Manizales (28 km), Armero-Guayabal (50 km) |
O Nevado del Ruiz continua a ser um símbolo poderoso da natureza dual do nosso planeta: uma fonte de vida e beleza, pero também um lembrete da necessidade de eterna vigilância e respeito pelas forças da geologia. Enquanto o “Leão Adormecido” continua a rosnar, o mundo observa, agora muito mais bem preparado do que na fatídica noite de 1985.