Monte Mayon
Renomado como o cone vulcânico mais perfeito do mundo, o Mayon é uma mistura de tirar o fôlego de beleza, lenda e poder mortal.
Monte Mayon: O Cone Perfeito e os Amantes Trágicos
O Monte Mayon, elevando-se 2.463 metros (8.081 pés) acima das planícies exuberantes da província de Albay, nas Filipinas, é amplamente considerado o vulcão mais bonito do mundo. Sua simetria é geologicamente improvável; enquanto a maioria dos estratovulcões tem encostas irregulares devido à erosão ou aberturas laterais, o Mayon se destaca como um cone quase perfeito, uma obra-prima geométrica desenhada contra o céu tropical.
Mas essa beleza engana. O Mayon é o vulcão mais ativo das Filipinas, parte do violento Círculo de Fogo do Pacífico. Ele entrou em erupção mais de 50 vezes nos últimos 400 anos, sua história escrita tanto em solo fértil quanto em cidades soterradas. Para os habitantes locais — os Bicolanos — o Mayon não é apenas uma montanha; é uma presença viva, uma divindade e o túmulo de amantes trágicos cuja paixão ainda abala a terra.
A Lenda de Daragang Magayon
Para entender a alma do Mayon, é preciso olhar além da geologia para o antigo folclore da região de Bicol. Diz-se que o vulcão é o local de descanso de Daragang Magayon (Bela Dama), uma princesa da tribo Rawis.
O Cortejo
Magayon era famosa por sua beleza, atraindo pretendentes de terras distantes. Entre eles estava Pagtuga (Erupção), um chefe rico, mas arrogante, de Iriga, que cobriu o pai dela, Rajah Makusog (O Forte), com ouro. Mas o coração de Magayon pertencia a Panganoron (As Nuvens), um bravo guerreiro que a salvou de se afogar no rio Yawa.
A Tragédia
Quando Pagtuga soube que Magayon pretendia se casar com Panganoron, ele sequestrou o pai dela e ameaçou matá-lo. Para salvar seu pai, Magayon concordou em se casar com Pagtuga. Ao saber disso, Panganoron e seus guerreiros atacaram a festa de casamento. Na batalha que se seguiu, Panganoron matou Pagtuga. Mas quando Magayon correu para abraçar seu amante, ela foi atingida por uma flecha perdida. Enquanto Panganoron segurava seu corpo moribundo, ele também foi morto por um golpe de lança de um dos soldados de Pagtuga.
O Nascimento do Vulcão
O Rajah Makusog enterrou os amantes juntos. Dias depois, o chão onde jaziam começou a subir, formando um cone imponente.
- O Abraço: Acredita-se que o vulcão seja Magayon. As nuvens que frequentemente envolvem o pico são Panganoron, beijando sua amante.
- As Lágrimas: Quando chove suavemente nas encostas, diz-se que é Panganoron chorando por seu amor perdido.
- A Ira: Quando o vulcão entra em erupção violentamente, acompanhado por terremotos e trovões, é o espírito de Pagtuga, tentando recuperar os presentes de Magayon e perturbando o sono dos amantes.
Perfeição Geológica e Perigo
Geologicamente, o Mayon é o arquétipo de um estratovulcão. É construído a partir de camadas alternadas de material piroclástico (cinzas, escória) e fluxos de lava.
Por que é tão Simétrico?
A forma de “cone perfeito” do Mayon é uma raridade. Ela persiste porque:
- Erupções da Abertura Central: Quase todas as erupções do Mayon ocorrem na cratera central do cume, distribuindo material uniformemente por todos os lados.
- Atividade Frequente: O vulcão entra em erupção com tanta frequência que a erosão (que geralmente marca e remodela os vulcões) não tem tempo de degradar o cone antes que novas camadas sejam adicionadas.
- Inclinação da Encosta Superior: As encostas superiores atingem ângulos de 35-40 graus, coroadas por uma pequena cratera no cume com cerca de 200 metros de diâmetro. Essa inclinação, embora bela, torna a montanha incrivelmente perigosa, pois rochas soltas e lava podem rolar a velocidades aterrorizantes.
O Perigo dos Lahars
Embora os fluxos de lava sejam uma ameaça, o maior perigo geralmente vem dos lahars (fluxos de lama vulcânica). As encostas do Mayon são cobertas por detritos vulcânicos soltos. Durante as pesadas chuvas de monção ou tufões que frequentemente atingem as Filipinas, esses detritos se transformam em uma lama semelhante a cimento que corre pelos canais dos rios (ravinas), soterrando tudo em seu caminho.
As Ruínas de Cagsawa: Um Monumento à Destruição
A imagem que define o turismo de Bicol — a torre da igreja enegrecida emoldurada pelo vulcão — é um memorial ao dia mais mortal do Mayon.
A Erupção de 1814
Em 1º de fevereiro de 1814, o Mayon desencadeou uma violenta erupção Pliniana. Não apenas expeliu cinzas; ele colapsou a coluna de detritos da erupção, enviando correntes de densidade piroclástica correndo em direção às cidades.
- O Refúgio da Igreja: Os moradores da cidade de Cagsawa fugiram para sua igreja de pedra, acreditando que as paredes sagradas os protegeriam. Foi um erro de cálculo trágico. Os fluxos e os lahars subsequentes soterraram a cidade e a igreja, matando aproximadamente 1.200 pessoas em seu interior.
- O Sobrevivente: Apenas o campanário da Igreja de Cagsawa permaneceu visível acima do solo.
- Hoje: O Parque das Ruínas de Cagsawa permanece como um lembrete solene do poder da natureza. Os visitantes podem pisar no chão que é, na verdade, o nível do telhado da igreja soterrada, olhando para a torre do sino que resistiu a terremotos e tufões por dois séculos.
Atividade Recente e Monitoramento
O Mayon nunca está verdadeiramente adormecido. É um dos vulcões mais monitorados do mundo.
A Erupção de 2018
Em janeiro de 2018, o Mayon deu um show espetacular e aterrorizante. Fontes de lava “estrombolianas” dispararam até 600 metros no céu noturno, visíveis por milhas. A erupção forçou a evacuação de quase 90.000 pessoas. Foi um exemplo clássico de gestão de desastres; apesar da violência da erupção, as baixas foram minimizadas devido às zonas de perigo rigorosamente aplicadas.
Status Atual (2023-2024)
Desde junho de 2023, o Mayon está em estado de “erupção efusiva”. Um domo de lava se formou na cratera do cume, empurrando lentamente a lava que desce pelas encostas como quedas de rochas incandescentes.
- Brilho no Escuro: À noite, a cratera brilha com um vermelho sinistro, e raios de luz (rochas rolando) podem ser vistos caindo em cascata pelas ravinas, uma visão hipnotizante que atrai turistas para os mirantes na cidade de Legazpi.
O Festival Magayon
Todos os anos em abril, a província de Albay ganha vida com o Festival Magayon, uma celebração de um mês em homenagem ao vulcão e à lenda de Daragang Magayon.
- Dança de Rua: O destaque é a competição de dança de rua, onde os habitantes locais se vestem com trajes coloridos representando os mitos da região. Dançarinos se movem ao ritmo dos tambores, reencenando a trágica história de amor de Magayon e Panganoron.
- A Reencenação: Uma performance teatral dramática é realizada no sopé, contando a batalha entre Panganoron e Pagtuga. Termina com a morte dos amantes e o “nascimento” do vulcão, muitas vezes acompanhado por fogos de artifício que imitam uma erupção.
- Esportes e Cultura: O festival também apresenta eventos esportivos como a ultramaratona “Mayon 360”, onde corredores circulam toda a circunferência do vulcão (80 quilômetros), lutando contra o calor e o terreno ondulado.
Turismo: Aventura no Limite
Apesar do perigo — ou talvez por causa dele — o Mayon é um destino de aventura próspero.
Passeios de Lava em ATV
A maneira mais popular de experimentar o Mayon é de ATV (Veículo Todo-Terreno).
- A Experiência: Os visitantes dirigem seus próprios ATVs através de arrozais, cruzando leitos de rios e pulando sobre trilhas rochosas formadas por antigos lahars.
- A Parede de Lava Negra: O destino final é a “Parede de Lava Negra”, um depósito maciço da erupção de 2006. Ergue-se como uma fortaleza de basalto irregular. Os caminhantes podem escalar esta parede até uma área de heliporto que oferece uma vista deslumbrante e desobstruída do cume fumegante a apenas alguns quilômetros de distância.
- A Lava Verde: Trilhas mais antigas, conhecidas como trilhas de “Lava Verde”, serpenteiam pela vegetação que cresceu sobre depósitos de 1984 ou antes, mostrando como a vida retorna ao vulcão.
Caminhada no Mayon: Um Feito Perigoso
Escalar até o cume do Mayon é um empreendimento de montanhismo sério e muitas vezes é proibido.
- Níveis de Alerta: Quando o Nível de Alerta é 1 ou superior, escalar é estritamente proibido. O risco de explosões freáticas (impulsionadas por vapor) repentinas é muito alto. Em 2013, cinco alpinistas foram mortos por uma súbita explosão de rochas enquanto estavam perto do cume durante um período “calmo”.
- O Acampamento: Quando aberto, os caminhantes geralmente caminham até o Acampamento 1 ou Acampamento 2. O terreno muda de pastagem para uma paisagem lunar de cascalho solto e pedras. É fisicamente exigente, exigindo escalada em solo instável.
Biodiversidade: O Parque Natural do Vulcão Mayon
Ao redor do cone há uma área protegida que preserva um ecossistema surpreendentemente diverso.
- O Gradiente da Vida: A base é tropical, cheia de plantações de coco e árvores de noz pili (a fonte da noz cremosa famosa da região). À medida que você sobe, a vegetação se torna floresta de dipterocarpos, depois floresta montana e, finalmente, charneca antes de dar lugar à rocha nua.
- Espécies Raras: O parque abriga a Coruja-Águia das Filipinas, o Porco-Verrugoso das Filipinas e o Rato-das-Nuvens Gigante. Essas espécies se adaptaram a viver à sombra de erupções constantes.
Patrimônio Culinário: O Tempero de Bicol
Nenhuma visita ao Mayon está completa sem provar a comida da região. A culinária de Bicol é única nas Filipinas pelo uso liberal de leite de coco (gata) e pimentas (siling labuyo).
- Bicol Express: Um ensopado ardente de carne de porco, pasta de camarão e pimentas cozidos em leite de coco.
- Sorvete de Sili: Uma sobremesa que imita o vulcão — frio e cremoso no início, com um toque ardente de pimenta no final. É um rito de passagem para os visitantes das Ruínas de Cagsawa.
Conclusão
O Monte Mayon é um paradoxo. É o assassino natural mais perigoso das Filipinas, mas sustenta a região através de solo fértil e turismo. É uma maravilha científica de geometria e um símbolo mitológico de amor eterno. Ver o Mayon quando as nuvens se partem — revelando aquela silhueta triangular impossível — é entender por que os antigos acreditavam que não era apenas rocha e fogo, mas o túmulo de uma bela deusa, abraçando para sempre o céu.